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"Encontro de Mulheres do Agro" da Sedap-PB aborda a violência contra a mulher durante a Agromar Lucena

publicado: 01/04/2026 08h13, última modificação: 01/04/2026 08h13
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Fortes e chocantes testemunhos de vários tipos de violência e histórias de coragem e superação marcaram a primeira etapa do projeto “Encontro de Mulheres do Agro” da Secretaria de Estado da Agropecuária e da Pesca (Sedap-PB) durante o último dia de programação da Agromar Lucena, neste sábado, dia 28, realizada na orla do município do Litoral Norte. Com o título “O Poder de Ser Mulher: Direitos, Conquistas e Futuro”, o evento teve como tema “O Papel do Homem no Combate ao Feminicídio”. O objetivo da temática escolhida foi trazer o homem para o debate e a prevenção à violência contra a mulher, aproveitando, também a programação do Mês de Março, quando ocorre o Dia Internacional da Mulher, dedicado às lutas e conquistas das mulheres.
         
O secretário da Sedap-PB, Joaquim Hugo Vieira, destacou a importância do “Encontro de Mulheres do Agro”. “A intenção do projeto é garantir nas exposições do agro espaços de discussão de temas relevantes, para toda a sociedade e em especial para as mulheres", ressaltou. Em fevereiro de 2026, foi lançado pelo Governo Federal, o  Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio e representa um importante avanço na luta contra a violência de gênero no Brasil, ao propor ações integradas entre diferentes esferas do poder público e da sociedade. O feminicídio, caracterizado como o assassinato de mulheres em razão de sua condição de gênero, é uma das formas mais extremas de violência e reflete uma realidade marcada por desigualdades históricas, culturais e sociais. Nesse contexto, a participação dos homens é fundamental para o enfrentamento desse problema. Isso porque a violência contra a mulher está profundamente ligada a padrões culturais machistas, que muitas vezes são reproduzidos e naturalizados no cotidiano”.

Joaquim Hugo acrescenta: “Assim, é indispensável que os homens assumam um papel ativo na desconstrução dessas práticas, questionando comportamentos, promovendo o respeito e incentivando relações baseadas na igualdade. Além disso, eles podem atuar como agentes de mudança, influenciando positivamente outros homens e contribuindo para a formação de novas gerações mais conscientes”.

De acordo com a assessora de Gestão Social da Sedap-PB e idealizadora do projeto “Encontro de Mulheres do Agro”, Márcia Dornelles, o papel do homem no combate ao feminicídio é essencial. “Esse tipo de violência que é o assassinato de mulheres por razões de gênero não pode ser enfrentado apenas pelas mulheres ou pelo Estado; exige mudança de comportamento e responsabilidade coletiva, especialmente dos homens”. Ela apontou que “o feminicídio segue sendo uma das formas mais extremas de violência na sociedade brasileira. Apesar dos avanços legais, como a Lei Maria da Penha, o enfrentamento desse problema exige também uma mudança profunda de comportamento, especialmente, entre os homens”.

Márcia Dornelles frisou que “a educação tem sido destacada como ferramenta central na prevenção. Conversas sobre respeito, igualdade e consentimento, desde a infância, podem contribuir para a formação de relações mais saudáveis e menos violentas no futuro. Canais de denúncia, como o Disque 180, continuam sendo essenciais para o acolhimento e orientação de vítimas. E em casos de risco iminente, a Polícia Militar deve ser acionada pelo número 190”.
 
O prefeito de Lucena, Léo Bandeira, comentou sobre a importância da exposição para o município e, também, da realização do “Encontro de Mulheres do Agro”. “A gente está construindo o evento com a participação das pessoas para que a gente possa concretizar o melhor para Lucena. E isto só é possível com o apoio do Governo do Estado e, também, a força e o trabalho da mulher”, pontuou.

Em seguida, a primeira dama de Lucena, Andréia Karla, comandou um momento de fé. Ela, ainda, destacou a força da mulher. “Eu sei que temos aqui histórias de mulheres guerreiras. A força e o trabalho da mulher precisam ser valorizados e respeitados. É triste saber que ainda hoje vivemos um tempo nessa situação de violência contra a mulher. Que os homens que estão aqui não cometam essa violência e que ajudem a combater e prevenir essa situação”.

O “Encontro de Mulheres do Agro" durante a Agromar Lucena começou com uma apresentação do “caricantor” Sócrates Gonçalves, que apresentou várias músicas de sucesso da MPB.

Histórias de dor, tristeza, luta e coragem
Na sequência, tiveram início os  depoimentos de mulheres sobre suas experiências de vida. Os relatos foram emocionantes, fortes, chocantes e cheios de luta e coragem. A agricultora Suelene Sotero apresentou uma das histórias de vida mais duras. Após ver o pai agredir e ameaçar a mãe de morte, ela saiu de casa aos 13 anos para tentar melhorar de vida. Acabou se envolvendo com um homem mais velho e foi estuprada. Passou a viver com o agressor em Sapé, sendo abusada sexualmente diversas vezes: “Ele chegava bêbado, tapava a minha boca e me estuprava”, relembrou. Ela acrescentou que acabou engravidando do companheiro abusador. “Eu amo a milha filha, mas ela foi gerada de um estupro”.

Suelene Sotero conseguiu deixar o homem com quem morava em Sapé e retornou à Lucena para tentar refazer a vida. Porém, ainda muito jovem, acabou se envolvendo com um outro homem e engravidou novamente, sendo abandonada. O pai e a mãe a forçaram a voltar para o primeiro companheiro, pois acreditavam que a criança era filho dele. Com duas crianças para criar, ela se sujeitou a retornar a viver com o ex-companheiro. Os abusos continuaram. Diante disso, ela conseguiu criar forças e obteve ajuda de outras mulheres para mudar de vida. Trabalhou, prosperou e foi casada por 22 anos com outro homem, até que descobriu uma traição e, diante disso, o companheiro a tentou matar. A rede de apoio formada por pessoas da comunidade a socorreu e hoje ela tem medidas protetivas contra o agressor.

Atualmente, Suelene Sotero conseguiu se reerguer mais uma vez. Com muita emoção em seu relato durante o “Encontro de Mulheres do Agro”, ela enfatizou: “Eu digo a vocês mulheres: Não se conformem, não desistam de lutar”.

Outro depoimento contundente foi o da agricultora Josilene Paulino, mais uma vítima da violência. “Eu conquistei o meu direito de ir e vir. Passei muito tempo vivendo em cárcere privado, sofrendo todo tipo de violência”, afirmou. A salvação da vida presa ao sofrimento de conviver com um companheiro agressor veio por meio de outras mulheres. “Se não fosse por uma mulher que viu o que eu estava sofrendo e decidiu meter a colher, eu não estaria aqui”, acrescentou.

Josilene Paulino rememorou, com lágrimas nos olhos, os abusos sofridos. “Eu não podia sair de casa, não podia falar com ninguém. Ele me batia por qualquer motivo, fazia ameaças, eu ficava cheia de marcas das agressões, Eu me sentia um lixo”, disse. E complementou em meio às lágrimas: “Hoje eu posso ir aonde quiser, eu estudo, eu trabalho, posso ir a uma igreja. Mas ainda é difícil falar, porque dói”.

Outras histórias de superação foram contadas pela professora Valdirene Sales, que começou trabalhando com o pai e os 10 irmãos na agricultura, foi morar em Brasília, casou e veio residir em Lucena. Realizou o sonho de se tornar professora e atualmente é diretora de uma escola do município. As agricultoras Rita Sabino e Ana Lúcia Rodrigues também apresentaram suas histórias durante o evento, mostrando as dificuldades enfrentadas desde a infância na roça.

A agricultora Roseane Luiza Pereira foi outra participante do evento. Ela falou sobre os sacrifícios durante a vida ao lado do seu primeiro casamento até conseguir montar uma loja, encontrar um novo companheiro que a trata com respeito e compartilha de suas conquistas.

Maria José Duarte também participou do “Encontro de Mulheres do Agro” durante a Agromar Lucena". Agricultura e enfermeira, ela buscou nos estudos a sua liberdade. Diante de todos os desafios, vivendo na pobreza, ela persistiu, venceu e no próximo dia 17 de abril estará se formando assistente social. Ela dá o recado: “Eu não vou parar!”.

Já a agricultora e professora Francisca Batista, que atua no assentamento Estiva do Geraldo, lembrou do esforço para conquistar o estudo. Começou a trabalhar aos 14 anos e com muito esforço conseguiu se formar em cinco graduações na área da educação. Ela relatou: “Eu dizia para mim: ‘Eu vou conseguir!’”. Emocionada, ela contou sobre a realização do sonho da filha de ser comissária de voo e do acidente com o marido que teve grande parte do corpo queimado. Atualmente, após se aposentar da sala de aula, ela se tornou empreendedora ao abrir uma loja que comercializa lingerie.

Outra professora comprometida com o lugar onde mora é Dicla Sales de Araújo. Ela ensina alunos em um assentamento de agricultores em Lucena. “Hoje eu ensino mais a educação infantil, mas amo a minha turma da noite de ensino adulto”, comentou. Muitos dos seus alunos, jovens e adultos, acompanharam a sua participação no evento e a apluadiram de pé ao final. Ela acrescentou: “A história de vocês, contada aqui, nos conforta”.

Já a empreendedora Rudyanne Dolabella rememorou sua trajetória e como mudou completamente a vida para vir com o marido e a filha residir na Paraíba após se apaixonar pela cidade de João Pessoa. “Não existe o momento certo. Existe o momento”, afirmou. Ela e a família acabaram conhecendo a cidade de Lucena e decidiram fixar moradia no assentamento Estiva do Geraldo. Montaram uma empresa de produção e comercialização de coxinhas. O negócio prosperou e ela e o marido contrataram mais trabalhadores e perceberam que o que parecia uma loucura se mostrou a decisão mais acertada que tomaram.

 A gestora ambiental e diretora de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Lucena, Carleide Xavier, destacou a necessidade do compartilhamento da história das mulheres: “São histórias de luta, força e superação que devem sempre ser contadas, para servir de exemplo para outras mulheres”.
         
Realizada pela Prefeitura de Lucena em parceria do Governo do Estado, através da Sedap-PB, a Agromar Lucena foi a primeira exposição do Circuito Paraíba Agronegócios realizada no Litoral. O evento também contou com apoios da Empresa de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária (Empaer) e do Empreender-PB. Além desses parceiros, também apoiaram o evento a Associação Paraibana de Criadores de Caprinos, Ovinos e Bovinos  (Appaco+Bov), Ministério da Pesca e da Agricultura do Governo Federal, Banco do Nordeste, Federação da Agricultura da Paraíba (Faepa); Senar-PB, Sebrae-PB, Fecomércio Paraíba, por meio do Sistema Nacional do Comércio (Senac) e Serviço Social do Comércio (Sesc).